Conheça Ysani Kalapalo, a índia de direita que luta pela emancipação dos índios

[NOTA DO AUTOR]
Na noite de quarta-feira tive uma feliz surpresa !

Recebi a resposta da Ativista e Youtuber Indígena Ysani Kalapalo, a qual acompanho e admiro.
Semanas atrás, eu havia enviado um email para ela manifestando a minha vontade de entrevista-la para o meu blog e quando estava na sala de aula do meu curso de Jornalismo, recebi a notificação pelo celular com sua resposta se colocando a disposição para a entrevista. Logo, após trocarmos algumas mensagens, decidi fazer uma reportagem diferente, no estilo perfil e contar uma pouco de sua história.
Sendo assim, deixei o número do meu telefone propondo que fizéssemos por áudio, através do Whatsapp e assim poder captar um pouco de sua personalidade para descrever no perfil, não demorou muito tempo e recebi sua mensagem no aplicativo.

Após algumas palavras, me encantei por essa jovem e já na primeira pergunta que eu fiz, onde a deixei me contar com liberdade sobre sua infância, percebi que UMA simples entrevista seria muito aquém da maravilhosa história que eu estava ouvindo e mudei os planos, deixei ela falar, falar, falar... e ficamos mais de uma hora no telefone. 
É com muito carinho e entusiasmo que relato aqui um pouco da história dessa menina linda, meiga, carismática e legitimamente BRASILEIRA.


Ysani Kalapalo nasceu em 18 de Fevereiro de 1991 na Aldeia Aiha-Kalapalo, aos 4 anos se mudou com sua família e fundaram a Aldeia Tehuhungu, localizada no Parque indígena do Xingu, em Mato Grosso.
Filha de Konue Kalapalo e Kanualu Aweti Nafukua, Ysani é a terceira filha mulher de um total de sete irmãos, sendo cinco mulheres e dois homens.
Arteira, como ela mesmo se descreve, Ysani só foi conhecer a cidade de fato aos seus 12 anos, sua aldeia ficava à 140 km de Canarama, cidade mais próxima.
Ao passar por um ritual de reclusão, onde toda menina que entra na fase de menstruação fica em torno de 1 à 3 anos sem contato com o resto da tribo, Ysani adoeceu, após passar por dois anos e meio reclusa. Não muito tempo depois, sua irmã de oito anos também foi acometida pela mesma doença misteriosa e um dos Pajés da aldeia orientou seus pais à levarem-as para longe da aldeia Tehuhungu ou de qualquer outra aldeia do Xingu, pois segundo ele, elas estariam amaldiçoadas e a aldeia também e seria bom estarem longe da 'maldição' imposta pelos feiticeiros, somente assim elas estariam curadas.
*A feitiçaria é uma prática comum na cultura Xinguana.

DA ALDEIA PARA A CIDADE

A jovem índia e sua família migraram para cidade em uma verdadeira peregrinação até chegarem a cidade de São Carlos, em São Paulo, no dia 25 de dezembro de 2002.
Na rodoviária, seu pai usou o único dinheiro que tinha, uma nota de cinco reais, para comprar um cartão telefônico, este usado para ligar, através do orelhão, para os amigos que viviam na cidade.
Após várias tentativas sem sucesso, pois devido ao Natal, todos os amigos do Sr. Konue estavam viajando, o Segurança da rodoviária se sensibilizou e os encaminhou à um Albergue, pois seria mais seguro do que passar a noite na Rodoviária.

Alguns dias depois, a Universidade Federal de São Carlos cedeu um alojamento para os Kalapalos, onde passaram uma semana alocados nas instalações da Universidade até serem amparados por um Bispo da Igreja dos Mórmons, que os hospedaram em um hotel durante 1 mês e depois alugou uma casa e os ensinaram sobre as leis e a falarem o português, idioma que Ysani nunca tinha falado antes. 


A CURA E O PROCESSO DE CIVILIZAÇÃO

Nesse período, algo curioso aconteceu e mudou a sua vida,

Ysani e sua irmã, ainda sofrendo com a doença, recebiam diariamente a visita de missionários Mórmons e de um Pastor Evangélico,  que, assim como os Pajés da Tribo, disse que o problema das meninas era espiritual e faziam uma corrente de oração com sua família. 
Ysani relata esse momento de maneira muito natural, para ela, o mundo espiritual era algo comum na cultura do Alto Xingu.
À partir desse momento Ysani diz ter se "rendido" à figura de Jesus, ainda que dentro dos seus conceitos religiosos, onde foi criada, em uma religião politeísta dividida entre espíritos do bem e do mal, reconhecendo Jesus como um dos Deuses do bem e devido a essa experiência, ela e sua família aceitaram se batizar na Igreja dos Mórmons. 
Após um ano, a Igreja dos Mórmons não pôde mais arcar com o aluguel da casa da família Kalapalo em São Carlos, Ysani e os irmãos menores foram matriculados em uma escola particular, onde ganharam bolsas de estudo após passarem por uma escola pública e os pais de Ysani tiveram que arrumar um jeito de arcar com as despesas do aluguel e da alimentação, o Sr. Konue começou a vender artesanato indígena em uma barraca no centro de São Carlos e a mãe, Sra. Kanualu arrumou um trabalho como doméstica. 
Assim Ysani foi crescendo e conhecendo a cultura "branca", como os índios chamam a cultura da cidade grande.


O ENSINO MÉDIO, O ATIVISMO E A FAMA


Ysani foi se adaptando a cidade, apesar de ter vivido uma vida como ela se refere de "extrema-pobreza" nos primeiros anos, mesmo com os trabalhos da mãe e do pai, mal conseguiam pagar o aluguel de R$300 na época referente a humilde casa de São Carlos e a alimentação, a escola ajudava muito na parte educacional dos irmãos, porém era difícil sobreviverem com o pouco que ganhavam.

Até que, após a separação de seus pais, Sr. Konue percorreu algumas cidades de São Paulo até encontrar em Embu das Artes um lugar propício para se estabelecer.
Seu pai reencontrou um amigo de longa data, do tempo de Irmãos Vilas-Boas, o artista plástico Waldemar de Andrade e Silva e trabalharam juntos no Museu do Índio.

*Nesse momento, Ysani interrompe sua narrativa e profere palavras que mostram o espírito de luta que a fez chegar ao lugar onde se encontra hoje :   


"Se tem uma coisa que as histórias dos guerreiros xinguanos me ensinou é: Guerreiro que é guerreiro luta até o fim, ele não se vitimiza e não derrama lágrimas antes da vitória."

Ao chegar em Embu das Artes, Ysani e seus irmãos ajudaram seu pai com o artesanato, devido ao apelo turístico que a cidade paulistana tem, logo o trabalho de seu pai começa a prosperar e seus filhos também, cada um descobrindo o seu caminho, alguns seguiram no mundo da arte indígena, outros com turismo na aldeia e até abriram uma loja de artigos que Sr. Konue e Sra. Kanualu produziam.

Ysani continua seus estudos, agora, ela se refere à mudança de sua vida como : "de 'extrema-pobreza' para 'pobreza-normal' [risos]".
No ano de 2007,  Ysani começa a usar o Orkut como plataforma para sua luta em prol da comunidade indígena.
Na rede social ela contava como era sua vida na aldeia e peculiaridades do povo indígena brasileiro, até despertar a atenção de ONGS e parlamentares, principalmente os da esquerda.

Ainda no Orkut, Ysani criou, em 2008, a campanha Orgulho Indígena, onde ela relata ter sido alvo de discriminação :

"As pessoas estranhavam, diziam : 'como assim um índio usando internet ?',  faziam muitas piadas, mas eu nunca liguei".
Já em 2011, Ysani criou o Movimento Indígenas em Ação, a repercussão lhe rendeu convites para viajar pelo Brasil fazendo palestras, onde ela começou também a denunciar as atrocidades vividas dentro da comunidade indígena.
Mesmo tendo muito orgulho de sua tradição, da qual ela fala com entusiasmo e alegria, ela também sentia a necessidade de denunciar as barbaridades cometidas pelo "lado ruim" da cultura e também sobre o cerceamento da civilização do índio feito por ONGS e Instituições do Governo.
Ysani, que assim como sua mãe, já era uma ativista dentro da comunidade indígena contra o Infanticídio, Estupro, Machismo recorrente da cultura xinguana, começou a ter espaço e voz também na sociedade e por conta disso, ouviu dos mesmos parlamentares esquerdistas que não falasse do que acontecia dentro da aldeia, pois segundo eles, isso acabaria com sua cultura.

Ysani também revelou que a FUNAI coibia os índios de estudarem e de se integrarem a sociedade, para Ysani, os governos anteriores sempre trataram os índios como coitados e os enclausuravam sem deixar que eles se misturassem com o "homem branco", mas que a maioria dos índios queriam participar da sociedade.

Na época, sem entender sobre as articulações políticas e tão pouco saber o que seria "esquerda" e "direita", Ysani fazia o que os então colegas da política diziam, mas sua mãe foi sua maior incentivadora, aconselhando-a à falar sempre a verdade e daí por diante ela começou a ser um problema para os partidos que usavam a "cultura indígena" como um pano de fundo para suas articulações.
Até que Ysani começou a ler, entender o que cada ideologia pregava, disse ela que ao ler Marx, achou horrível e viu que não era aquilo que ela queria propagar, até que começou a se relacionar com os conservadores, que ao contrário da esquerda, a incentivaram à denunciar e a prosseguir na sua luta.
O livro "O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil", de Leandro Narloch, foi o primeiro livro conservador que ela leu, emprestado por um amigo.
Ali ela se identificou e percebeu com qual ideologia ela se adequava :

 "Eu li nesse livro uma coisa da qual eu me identifiquei e que era verdade o que dizia sobre os índios, nele dizia que o índio também era responsável pelo desmatamento, o índio também queima a floresta, o índio não é bonzinho como as pessoas pensam, nós precisamos ser educados, precisamos de leis também como qualquer outro cidadão".


VIDA ATUAL


"Em 2015 eu já estava convicta de que eu apoiava a ideologia da direita conservadora, foram as pessoas que abraçaram as minhas causas : infanticídio, pedofilia, abusos...

daí eu comecei a usar as redes pra falar a verdade e hoje em dia esse pessoal da esquerda me chama de traidora, mas eu não conhecia, não sabia o que era. Depois que eu estudei eu conheci a ideologia da esquerda."

Ysani, não chegou a completar as três faculdades que cursou : Bioquímica, Serviço Social e Turismo, mas tem sete cursos técnicos no currículo e atualmente é Web Designer, além de se dividir entre suas palestras pelo Brasil e seu canal no Youtube, onde publica semanalmente vídeos tirando dúvidas sobre a cultura indígena.

Durante a campanha de Bolsonaro, a índia chegou a visita-lo em sua casa. Segundo ela, Bolsonaro quer o melhor para o índio e representa o que o índio tradicional deseja : trabalhar e ser parte da sociedade.
Ainda perguntei a Ysani o que ela achava da polêmica entre a esquerda e o Governo Bolsonaro sobre a demarcação das terras, e assim ela me disse :

 "O índio tradicional já tem muita terra, o que está acontecendo ultimamente é que estão surgindo os 'autointitulados', que descobrem uma ascendência indígena e usam isso para reivindicarem mais direitos, muitas vezes apenas para usar em benefício próprio, existem até alguns puros entre eles, mas acabam sendo massa de manobra da esquerda e de ONGS".


Ysani ainda encerra a conversa com um desabafo :

"O que me motiva a fazer tudo isso que eu faço é acabar com o 'Cacicado' de ONGS que acontece nas Reservas Indígenas, que manipulam os índios para seus próprios interesses, por dinheiro."
Hoje Ysani Kalapalo é a maior Youtuber indígena do Brasil, com mais de 100 mil inscritos em seu canal.

Acompanhe Ysani pelas suas redes sociais : 
Instragram : @ysanikalapalo

Twitter : @ysanikalapalo
Facebook : /ysanikalapaloreal
Youtube : https://www.youtube.com/user/YsaniTV


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